Hora do Lazer

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sábado, 26 de dezembro de 2009

Para quem é pai e mãe e para aqueles que ainda serão


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Ha um periodo em que os pais vao ficando orfaos dos seus próprios
filhos. E que as criancas crescem independentes de nos, como arvores
tagarelas e passaros estabanados. Crescem sem pedir licenca a vida.
Crescem com uma estridencia alegre e, as vezes, com alardeada
arrogancia. Mas nao crescem todos os dias de igual maneira. Crescem de
repente.

Um dia sentam-se perto de voce no terraco e dizem uma frase com tal
maturidade que voce sente que nao pode mais trocar as fraldas daquela
criatura. Onde e que andou crescendo aquela danadinha que voce nao
percebeu?

Cade a pazinha de brincar na areia, as festinhas de aniversario com
palhacos e o primeiro uniforme do Maternal?

A crianca esta crescendo num ritual de obediencia organica e desobediencia civil. E voce esta agora ali, na porta da discoteca, esperando que ela nao apenas cresca, mas apareca! Ali estao muitos pais ao volante, esperando que eles saiam esfuziantes sobre patins e cabelos
longos, soltos. Entre hamburgueres e refrigerantes nas esquinas, la estao nossos filhos com o uniforme de sua geracao: incomodas mochilas da moda nos ombros. Ali estamos, com os cabelos esbranquicados. Esses sao os filhos que conseguimos gerar e amar, apesar dos golpes dos ventos, das colheitas, das noticias, e da ditadura das horas. E eles crescem meio amestrados, observando e aprendendo com nossos acertos e erros. Principalmente com os erros que esperamos que nao repitam.

Ha um periodo em que os pais vao ficando um pouco orfaos dos proprios
filhos. Nao mais os pegaremos nas portas das discotecas e das festas.
Passou o tempo do ballet, do ingles, da natacao e do judo. Sairam do
banco de tras e passaram para o volante de suas proprias vidas.
Deveriamos ter ido mais a cama deles ao anoitecer para ouvir sua alma
respirando conversas e confidencias entre os lencois da infancia, e os
adolescentes cobertores daquele quarto cheio de adesivos, posteres, agendas coloridas e discos ensurdecedores. Nao os levamos suficientemente ao Playcenter, ao Shopping, nao lhes demos suficientes hamburgueres e cocas, nao lhes compramos todos os sorvetes e roupas que gostariamos de ter comprado. Eles cresceram sem que esgotassemos neles todo o nosso afeto.

No principio subiam a serra ou iam a casa de praia entre embrulhos,
bolachas, engarrafamentos, natais, pascoas, piscina e amiguinhos. Sim,
havia as brigas dentro do carro, a disputa pela janela, os pedidos de
chicletes e cantorias sem fim. Depois chegou o tempo em que viajar com
os pais comecou a ser um esforco, um sofrimento, pois era impossivel
deixar a turma e os primeiros namorados.

Os pais ficaram exilados dos filhos. Tinham a solidao que sempre
desejaram, mas, de repente, morriam de saudades daquelas "pestes".
Chega o momento em que so nos resta ficar de longe torcendo e rezando
muito (nessa hora, se a gente tinha desaprendido, reaprende a rezar)
para que eles acertem nas escolhas em busca de felicidade. E que a
conquistem do modo mais completo possivel.

O jeito e esperar: qualquer hora podem nos dar netos. O neto e a hora do
carinho ocioso e estocado, nao exercido nos proprios filhos e que nao
pode morrer conosco. Por isso os avos sao tao desmesurados e distribuem
tao incontrolavel carinho. Os netos sao a ultima oportunidade de
reeditar o nosso afeto. Por isso e necessario fazer alguma coisa a mais,
antes que eles crescam.

Aprendemos a ser filhos depois que somos pais. So aprendemos a ser pais
depois que somos avos..."

(Affonso Romano de Sant'Anna)

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